Especial na Alura

POO: Interfaces e Implementações

Paulo Silveira
Paulo Silveira

No livro Introdução à arquitetura e design de software, há um grande destaque para práticas de design e orientação a objetos, assim como no conteúdo da Alura. Nesse capítulo do livro, eu e outros autores debatemos sobre a priorização do uso de interfaces no momento de modelagem e de criação dos testes.

Programe voltado à interface, não à implementação

Ao trabalhar com coleções, escolher a implementação certa para cada caso é uma tarefa difícil. Cada uma delas, como ArrayList, LinkedList ou HashSet, é melhor para resolver determinas categorias de problemas. Pode ser muito arriscado escrever todo o código da aplicação dependendo de uma decisão antecipada. Apesar disso, grande parte dos desenvolvedores opta por sempre utilizar ArrayList desde o início, sem critério algum.

Considere um DAO de funcionários que pode listar o nome de todos que trabalham em determinado turno, devolvendo um ArrayList com os nomes:

public class FuncionarioDao {
    public ArrayList<String> buscaPorTurno(Turno turno) { ... }
}

E um código que precisa saber se um determinado funcionário esteve presente, efetuando uma busca simples na lista devolvida:

FuncionarioDao dao = new FuncionarioDao();
ArrayList<String> nomes = dao.buscaPorTurno(Turno.NOITE);

boolean presente = nomes.contains("Anton Tcheckov");

Mas a busca com contains em um ArrayList é, em termos computacionais, bastante custosa. Poderíamos utilizar outras alternativas de coleção, trocando o retorno de ArrayList para HashSet, por exemplo, pois sua operação contains é muito mais eficiente computacionalmente, usando internamente uma tabela de espalhamento (hash table).

Para poucos funcionários, a diferença é imperceptível. Entretanto, à medida que a lista aumenta, a diferença de desempenho entre um ArrayList e um HashSet torna-se mais clara, e até mesmo um gargalo de performance.

O problema em realizar uma mudança de implementação como esta é que todo código que usava o retorno do método como ArrayList quebra, mesmo que só usássemos métodos que também estão definidos em HashSet. Seria preciso alterar todos os lugares que dependem de alguma forma desse método. Além de trabalhoso, tarefas do tipo search/replace são um forte sinal de código ruim.

Há esse acoplamento sintático com a assinatura do método, que conseguimos resolver olhando os erros do compilador. Mas sempre existem também informações semânticas implícitas na utilização desse método, e que não são expostas pela assinatura.

Um exemplo de acoplamento semântico está em depender da informação de que uma List permite dados duplicados, enquanto um Set garante unicidade dos elementos. Como problemas no acoplamento sintático são encontrados em tempo de compilação, os semânticos somente são em execução, daí um motivo da importância de testes que garantam o comportamento esperado.

O grande erro do método buscaPorTurno da classe FuncionarioDao foi atrelar todos os usuários do método a uma implementação específica de Collection. Desta forma, alterar a implementação torna-se sempre muito mais custoso, caracterizando o alto acoplamento que tanto se procura evitar.

Para minimizar esse problema, é possível usar um tipo de retorno de método mais genérico, que contemple diversas implementações possíveis, fazendo com que os usuários do método não dependam em nada de uma implementação específica. A interface Collection é uma boa candidata:

public class FuncionarioDao {
    public Collection<String> buscaPorTurno(Turno turno) { ... }
}

Com o método desta forma, podemos trocar a implementação retornada sem receio de quebrar nenhum código que esteja invocando buscaPorTurno, já que ninguém depende de uma implementação específica. Usar interfaces Java é um grande benefício nestes casos, pois ajuda a garantir que nenhum código dependa de uma implementação específica, pois interfaces não carregam nenhum detalhe de implementação.

Repare que é possível optar ainda por outras interfaces, como List (mais específica) e Iterable (menos específica). A escolha da interface ideal vai depender do que você quer permitir que o código invocador possa utilizar e realizar na referência retornada. Quanto menos específica, menor o acoplamento e mais possibilidades de diferentes implementações. Em contrapartida, o código cliente tem uma gama menor de métodos que podem ser invocados.

Algo similar também ocorre para receber argumentos. Considere um método que grava diversos funcionários em lote no nosso DAO:

public class FuncionarioDao {
    public void gravaEmLote(ArrayList<Funcionario> funcionarios) 
                                                        { ... }
}

Receber precisamente ArrayList como argumento tem pouca utilidade; raramente necessitamos que uma coleção seja tão específica assim. Receber aqui um List provavelmente basta para o nosso método, e permite que o código invocador passe outras coleções como argumento.

Podemos ir além e receber Collection ou, ainda, Iterable, caso nossa necessidade seja apenas percorrer os elementos. Neste caso, a escolha de Iterable permitiria o maior desacoplamento possível, mas limitaria o uso dentro do método. Por exemplo, não seria possível acessar a quantidade de elementos que essa coleção possui, nem os elementos de maneira aleatória por meio de um índice.

Devemos procurar um balanço entre o desacoplamento e a necessidade do nosso código. Esta é a ideia do Princípio de Segregação de Interfaces: clientes não devem ser forçados a depender de interfaces que não usam (MARTIN, 1996b).

O desenvolvedor deve ter em mente que acoplar uma classe, que possui menos chances de alterações em sua estrutura, com outra menos estável pode ser perigoso (MARTIN, 1997). Considere a interface List, que possui muitas razões para não mudar, afinal, ela é implementada por várias outras classes. Se ela sofresse alterações, todas as classes que a implementam teriam de ser alteradas também.

Então, consideramos que ela é altamente estável, o que significa que essa interface raramente obrigará uma mudança nas classes que a utilizam.

Uma implementação de lista (MeuProprioArrayList), feita pelo desenvolvedor, é provavelmente mais instável do que a interface List, já que as forças que a impedem de mudar são fracas (não há outras classes usando essa implementação). Ou seja, uma classe acoplada a essa implementação de lista eventualmente pode ser obrigada a mudar por causa de alguma alteração em MeuProprioArrayList.

Os frameworks e as bibliotecas consagrados sempre tiram proveito do uso de interfaces, desacoplando-se o máximo possível de implementações. Tanto a Session do Hibernate quanto a EntityManager da JPA devolvem List nos métodos que envolvem listas de resultados. Ao analisar a fundo as implementações atuais de Session e EntityManager do Hibernate, elas não retornam nem ArrayList, nem LinkedList, nem nenhuma coleção do java.util, e, sim, implementações de listas persistentes de pacotes do próprio Hibernate.

Isto é possível, novamente, pelo desacoplamento provido pelo uso das interfaces. Além disso, o retorno das consultas com JPA e Hibernate são List, para deixar claro ao usuário que a ordem é importante.

Manter a ordem de inserção e permitir acesso aleatório são características do contrato de List, e são importantes para o resultado de consultas. Isso porque podem definir uma ordenação (order by), uma ótima justificativa para optar por uma interface mais específica, e não usar Iterable ou Collection.

Nas principais APIs do Java, é fundamental programar voltado à interface. Ao usar java.io, evitamos ao máximo nos referenciar a FileInputStream, SocketInputStream, entre outras. O código a seguir aceita apenas arquivos como streams:

public class ImportadoraDeDados {
    public void carrega(FileInputStream stream) { ... }
}

Desta forma, não é possível passar qualquer tipo de InputStream para a ImportadoraDeDados. Adotar esta limitação depende do código dentro do método carrega. Ao utilizar algum método específico de FileInputStream, que não esteja definido em InputStream, não há o que fazer para desacoplar o código. Caso contrário, esse método poderia (e deveria) receber uma referência na InputStream, ficando mais flexível e podendo receber os mais diferentes tipos de streams, como argumento, que provavelmente não foram previamente imaginados. Utilize sempre o tipo menos específico possível.

Repare que, muitas vezes, classes abstratas trabalham como interfaces, no sentido conceitual de Orientação a Objetos (VENNERS, 2005). Classes abstratas possuem a vantagem de poder adicionar um novo método não abstrato, sem quebrar o código já existente. Já com o uso de interfaces (aqui, pensando na palavra-chave do Java), a adição de qualquer método acarretará a quebra das classes que a implementam.

Como interfaces nunca definem nenhuma implementação, a vantagem é que o código está sempre desacoplado de qualquer outro que as utilize. Isso muda com os polêmicos extension methods do Java 8, permitindo escrever uma implementação padrão nas interfaces, possibilitando suas evoluções ao mesmo tempo que minimiza a quebra de compatibilidade.

Os métodos load(InputStream) (da classe Properties) e fromXML(InputStream) (do XStream) são ótimos exemplos de código que não dependem de implementação. Podem receber arquivos dos mais diferentes streams: rede (SocketInputStream), upload HTTP (ServletInputStream), arquivos (FileInputStream), de dentro de JARs (JarInputStream) e arrays de byte genéricos (ByteArrayInputStream).

A Java Database Connectivity (JDBC) é outra API firmemente fundada no uso de interfaces. O pacote java.sql possui pouquíssimas classes concretas. Sempre que encontramos um código trabalhando com conexões de banco de dados, vemos referências à interface Connection, e nunca diretamente a MySQLConnection, OracleConnection, PostGreSQLConnection ou qualquer outra implementação de um driver específico, apesar de esta possibilidade existir.

Referindo-se sempre a Connection, deixamos a escolha da implementação centralizada em um ou poucos locais. Desta forma, fica muito fácil trocar a implementação sem modificar todo o restante do código. Isso ocorre graças ao desacoplamento provido pelo uso de interfaces.

No caso do JDBC, essa escolha por uma implementação está centralizada na classe concreta DriverManager, que aqui age como uma factory. Ela decide por instanciar uma implementação específica de Connection de acordo com os parâmetros passados como argumentos ao método getConnection e conforme os possíveis drivers previamente carregados.

Connection connection = 
  DriverManager.getConnection("jdbc:mysql://192.168.0.33/banco");

Pode ser fácil enxergar as vantagens do uso das interfaces, mas é bem mais difícil começar a utilizá-las extensivamente no seu próprio domínio. O uso exagerado de reflection para invocar métodos – dependendo de algumas condições – pode ser muitas vezes substituído por interfaces. Assim, a decisão de qual método invocar é deixada para a invocação virtual de método que o polimorfismo promove. Isso diminui bastante a complexidade e aumenta a manutenibilidade, além de termos algum ganho de performance (BLOCH, 2008).

Isto é ainda mais gritante com o uso da instrução switch, ou mesmo em um excessivo número de ifs encadeados. Essa abordagem pode acoplar totalmente seu modelo, tornando necessárias mudanças frequentes nele toda vez que uma nova entidade for adicionada ao domínio (FOWLER, 1999).

Programe voltado à interface, não à implementação é outro dos príncipios de Orientação a Objetos do livro Design Patterns (VENNERS, 2005; GAMMA; HELM; JOHNSON; VLISSIDES, 1994), abordado por meio de outros exemplos no artigo Dependency Inversion Principle, de Bob Martin (1996a).

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