Proliferação de agentes de IA: entenda o agent sprawl
13 min13 minutos de leitura
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Autor(a)
Fabrício Carraro
Fabrício Carraro é formado em Engenharia da Computação pela UNICAMP e pós-graduado em Data Analytics & Machine Learning pela FIAP. Atualmente, mora na Espanha.
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Ninguém decide criar agent sprawl. Ele aparece como consequência de algo bom: a adoção de agentes de IA deu certo, cada time construiu o seu, e um dia a liderança percebe que não consegue responder a uma pergunta simples: quantos agentes estão rodando na empresa e o que eles acessam?
Neste artigo, explicaremos a proliferação de agentes de IA para quem já é da área de tecnologia e ainda não esbarrou no termo.
Você vai entender como o fenômeno surge, o que ele custa, como os agentes se conectam, quais práticas de governança e segurança contêm o problema e como criar e implantar agentes sem alimentá-lo.
Conceito: o que é agent sprawl e por que surge
Agent sprawl é a multiplicação descontrolada de agentes de IA em uma organização, sem inventário central, sem dono definido e sem governança.
O termo vale para o conjunto: agentes isolados em cada departamento, redes de agentes que chamam uns aos outros, automações distribuídas em pipelines e integrações que ninguém documentou.
O fenômeno repete um padrão conhecido. O SaaS sprawl surgiu quando aplicações em nuvem ficaram fáceis de contratar sem passar pela TI; o shadow IT veio na esteira. A diferença agora está na autonomia.
Uma assinatura de software esquecida fica parada; um agente esquecido continua agindo, lendo dados, disparando fluxos e tomando decisões, muitas vezes com credenciais de quem o criou.
Vale separar aqui dois termos que se confundem normalmente. Agent sprawl é o problema operacional de não saber quais agentes existem. Shadow AI é a consequência de segurança, quando ferramentas e agentes operam fora de qualquer supervisão.
A relação tem direção: o sprawl sem controle produz shadow AI, e a resposta reflexa de bloquear tudo costuma piorar o quadro, porque empurra as pessoas para ferramentas não sancionadas.
Ele surge porque construir agentes ficou barato e rápido. Plataformas no-code criam um agente em uma tarde, sem passar por compras nem por revisão de arquitetura.
Some-se a isso a métrica dos times, que premia entregar e raramente premia governar, e o resultado é um ecossistema que cresce mais depressa do que a capacidade de mapeá-lo.
Como a proliferação de agentes de IA ocorre na prática
A trajetória costuma ser gradual e razoável a cada passo. O time de marketing monta um agente de atendimento no site. Vendas cria um de qualificação de leads.
O financeiro configura um assistente de conciliação. Já a engenharia desenvolve um agente de código com o Claude Code ou o GitHub Copilot. Cada decisão faz sentido sozinha, mas o problema é a soma.
Cinco mecanismos alimentam esse crescimento:
Integração de IA em produtos existentes: cada plataforma corporativa agora vem com agentes embutidos, e aprovar a plataforma significa aprovar, sem perceber, os agentes que ela traz.
APIs e conectores: modelos de linguagem acessíveis por API permitem que qualquer serviço interno ganhe um agente em poucas linhas de código.
Pipelines e automação: ferramentas de automação de fluxos passaram a incluir etapas com IA que decidem e encadeiam ações sozinhas.
Microsserviços: em arquiteturas distribuídas, cada serviço pode ganhar o próprio agente, e a comunicação entre eles vira uma rede difícil de enxergar.
Handoffs sem dono: agentes nascidos em hackathons ou sprints entram em produção e seguem rodando depois que o time muda.
Um exemplo concreto: uma empresa aprova um CRM com IA embutida, o time de suporte cria um agente no mesmo CRM, e outro time replica a função em uma plataforma diferente.
Em seis meses, três agentes acessam os mesmos dados de clientes, com permissões distintas, e dão respostas que nem sempre coincidem.
Sem inventário, política de uso e rastreabilidade, a multiplicação de agentes vira dispersão em vez de capacidade.
Benefícios vs. riscos da proliferação
Seria um erro tratar a multiplicação de agentes como algo a evitar. Ela é sinal de adoção real, e os ganhos aparecem primeiro: tarefas repetitivas automatizadas, respostas mais rápidas, times pequenos operando em escala e experimentação barata para descobrir onde a IA agrega valor.
Os riscos chegam depois, em silêncio:
Em complexidade, porque ninguém tem o mapa completo e cada incidente exige uma investigação para descobrir qual agente fez o quê.
Na governança, porque agentes redundantes produzem versões diferentes da verdade e a responsabilidade por uma decisão automatizada fica difusa.
E claro, na segurança, porque credenciais herdadas e permissões acumuladas ampliam o alcance de qualquer falha.
Há ainda o custo, que se espalha por várias linhas do orçamento: licenças duplicadas, tokens consumidos por agentes que ninguém desligou, infraestrutura replicada.
E a erosão de confiança, talvez o efeito mais corrosivo: quando dois agentes respondem coisas diferentes à mesma pergunta, as pessoas voltam ao processo manual e o retorno do investimento se dissolve.
Os números do mercado confirmam a tendência. Segundo o Gartner, uma grande empresa típica usava menos de 15 agentes em 2025 e deve passar de 150 mil até 2028, enquanto apenas 13% das organizações acreditam ter a governança adequada para isso.
A minoria mantém um inventário completo e atualizado do que já tem rodando.
Arquitetura de agentes: como eles se conectam e se coordenam
Para governar agentes, ajuda entender como eles conversam. Um agente sozinho combina um modelo de linguagem como motor de decisão, memória, ferramentas e um conjunto de regras. Quando existem vários, entra uma camada de coordenação que decide quem faz o quê.
O middleware de agentes é essa camada intermediária. Ele cuida do roteamento de tarefas, da autenticação de cada agente, do registro de logs e da tradução entre formatos, para que agentes construídos em plataformas diferentes consigam trocar mensagens.
É o equivalente ao barramento de integração dos sistemas tradicionais, agora com decisões adaptativas no meio do caminho.
A orquestração define o fluxo. No padrão supervisor, um agente coordenador recebe o objetivo, divide em subtarefas e distribui para agentes especialistas, consolidando o resultado.
No padrão em cadeia, cada agente processa e passa adiante. Em arranjos hierárquicos, supervisores comandam outros supervisores, o que permite escalar sem que um único ponto concentre todo o contexto.
A comunicação entre agentes passou a ter protocolos próprios. O Model Context Protocol padroniza como um agente acessa ferramentas e fontes de dados, e protocolos de agente para agente definem como eles se descobrem, negociam tarefas e trocam resultados.
Sem esse tipo de padrão, cada integração vira um conector artesanal, que é justamente o terreno em que o sprawl cresce.
Governança, políticas e seis passos para reduzir riscos
Em abril de 2026, o Gartner publicou um roteiro de seis passos para conter o agent sprawl, e ele converge com as práticas que fornecedores de identidade e de plataformas de agentes já recomendavam. A ordem importa: cada etapa cria a base da seguinte.
Estabelecer governança e políticas: regras claras sobre quando e como agentes podem ser construídos, quem pode criá-los e compartilhá-los e quais conectores são permitidos.
Construir um inventário centralizado: descobrir e catalogar todos os agentes, incluindo os que nasceram fora dos canais oficiais, para depois classificar cada um por nível de risco.
Definir identidade, permissões e ciclo de vida: cada agente ganha uma identidade própria, com permissões escopadas, revisão periódica e um processo formal de aposentadoria.
Governar a informação: controlar a quais dados cada agente tem acesso, manter esses dados atualizados, evitar compartilhamento excessivo e arquivar o que ficou obsoleto.
Monitorar e corrigir o comportamento: visibilidade contínua do uso, detecção de anomalias e correção de agentes que excedem o escopo ou o apetite de risco.
Cultivar o uso responsável: treinamento, comunidades de prática e disseminação de boas práticas, para que a governança se sustente quando a atenção da liderança mudar de foco.
Três instrumentos tornam esses passos operacionais:
O registro de agentes é a fonte única da verdade: documenta propósito, dono, acessos, versão do modelo e status, de preferência com atualização automática no deploy.
A rastreabilidade garante que cada decisão automatizada tenha log auditável.
E a gestão de ciclo de vida impede o modo de falha mais comum, que é o agente implantado e nunca desligado.
APIs, pipelines e plataformas de automação criam agentes a cada integração, quase sempre sem passar por um cadastro central.
Boas práticas de segurança, privacidade e ética na proliferação
A primeira mudança de mentalidade é tratar agentes como identidades de primeira classe. Eles precisam de credenciais próprias, autenticação, privilégio mínimo e permissões com prazo de validade, exatamente como se exige de pessoas e contas de serviço.
Agentes que herdam o acesso de quem os criou acumulam, ao longo do tempo, um alcance muito maior do que o desenhado.
Do lado dos dados, a LGPD impõe perguntas que as leis foram escritas pensando em decisões humanas: quem acessou a informação, com que finalidade e quem responde por ela.
Com agentes, essas respostas dependem de trilha de auditoria, anonimização de dados sensíveis antes do envio a modelos externos e regras claras de retenção.
As práticas de segurança da informação seguem valendo, agora com um tipo novo de ator dentro do perímetro.
A ética entra em dois pontos. Transparência: quem interage com um agente precisa saber que está falando com um sistema automatizado e ter um caminho para escalar a uma pessoa.
Responsabilidade: decisões com impacto relevante sobre pessoas exigem revisão humana antes da execução, e vieses herdados dos dados de treino pedem auditoria periódica das saídas.
Casos de uso e exemplos práticos
O sprawl aparece justamente onde os agentes mais entregam valor, o que reforça a ideia de governar em vez de proibir.
Atendimento ao cliente: agentes que resolvem pedidos, trocas e dúvidas, operando ao lado de chatbots tradicionais. O risco típico é a duplicação por canal, com respostas divergentes entre site, aplicativo e WhatsApp.
Operações: agentes que monitoram estoque, disparam reposições e conciliam notas. Sem dono definido, um agente desatualizado continua executando regras que a empresa já mudou.
Suporte de TI: triagem de chamados, reset de senhas e provisionamento de acessos. Aqui o perigo é o excesso de privilégio, já que o agente precisa de permissões amplas para ser útil.
Automação de processos: fluxos em várias etapas, do onboarding de pessoas à aprovação de despesas, com decisões condicionais no caminho. É o cenário em que agentes chamam agentes e a rastreabilidade mais se perde.
Em todos os casos, a pergunta de partida é a mesma que defendemos ao identificar problemas que podem ser resolvidos com IA: qual gargalo justifica o agente, quem responde por ele e como saberemos se ele parou de servir.
Múltiplos agentes de IA: coordenação e cooperação
Quando vários agentes trabalham no mesmo processo, três problemas precisam de resposta explícita: como dividir o trabalho, como compartilhar contexto e como resolver conflito.
A orquestração cuida do primeiro, atribuindo responsabilidades claras a cada agente. O contexto compartilhado, em memória comum ou em uma base acessada via RAG, cuida do segundo, evitando que cada agente carregue a própria versão dos fatos.
O conflito pede regras de precedência. Se dois agentes chegam a conclusões diferentes, quem decide? Os arranjos mais seguros definem um agente coordenador com autoridade final, limites de tentativas para evitar loops entre agentes e um gatilho de escalada para uma pessoa quando o impasse persiste.
Sem isso, agentes bem-intencionados podem se realimentar em ciclos caros e improdutivos.
A disciplina que sustenta tudo isso é a que o mercado vem chamando de agentic engineering, discutida em profundidade no comparativo entre engenharia de prompt e engenharia de agentes: especificar, validar, observar e limitar, em vez de improvisar.
Como criar e implantar agentes de IA com responsabilidade
O antídoto para o sprawl é um ciclo de vida definido antes do primeiro agente entrar em produção.
Viabilidade: registre o problema, o dono, os dados necessários e o critério de sucesso. Se não houver dono, não há agente.
Implementação: construa nas plataformas aprovadas, com identidade própria, permissões mínimas e testes que cubram os casos de falha, não apenas os de sucesso.
Governança: cadastre o agente no registro central, defina quem aprova mudanças e quais ações exigem confirmação humana.
Métricas: acompanhe taxa de conclusão, custo por execução, frequência de intervenção humana e incidentes, como em qualquer pipeline de IA em operação.
Melhoria contínua: revise em ciclos, aposente o que ficou obsoleto e consolide agentes redundantes em vez de criar mais um.
Repare que nada disso freia a adoção. Quando o caminho governado é mais fácil do que o improvisado, com templates, identidade pronta e registro automático, a governança se torna o padrão, e o sprawl deixa de ser o resultado natural.
faça o censo dos agentes ativos, incluindo os embutidos em plataformas contratadas;
nomeie um dono para cada um;
liste o que cada agente acessa;
identifique duplicações;
e defina o processo mínimo de aprovação e desligamento.
O roteiro de seis passos descrito acima serve como estrutura para o programa completo. Todavia, para aprofundar a base técnica, vale o guia de engenharia de software na era da IA, que trata da sustentabilidade de sistemas construídos com IA, e o panorama de IA para dev.
FAQ | Perguntas frequentes sobre proliferação de agentes de IA
Abaixo, separamos algumas das perguntas mais frequentes sobre proliferação de agentes de IA
1. O que são agentes de IA?
São sistemas que recebem um objetivo e trabalham para alcançá-lo com autonomia: planejam etapas, usam ferramentas e sistemas, avaliam o resultado e ajustam o caminho. Diferem de assistentes e chatbots por agirem no mundo real, em vez de apenas responder.
2. O que significa criar agentes de IA?
Significa projetar um sistema em torno de um modelo de linguagem, definindo objetivo, instruções, ferramentas que ele pode acionar, memória, limites de atuação e regras de escalada para pessoas. Em ambientes corporativos, inclui também dar ao agente uma identidade, permissões e um dono responsável.
3. Quais são exemplos de agentes de IA?
Um agente de atendimento que consulta o pedido e altera o endereço de entrega; um agente de suporte de TI que provisiona acessos; um agente de código que lê, escreve e testa software; um agente financeiro que concilia lançamentos. Todos executam tarefas de ponta a ponta, com algum grau de decisão própria.
4. Como saber se a minha empresa tem agent sprawl?
Alguns sinais bastam: a liderança não sabe quantos agentes existem, não há um painel único que os liste, times diferentes usam plataformas diferentes para construí-los, agentes só são descobertos quando algo quebra e não existe processo para desligá-los. Se três ou mais se aplicam, o sprawl já começou.