Decifrando Alan Turing: sua vida e trajetória no mundo da tecnologia.

Decifrando Alan Turing: sua vida e trajetória no mundo da tecnologia.
Camila Pessôa
Camila Pessôa

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Introdução

Ao longo da história encontramos algumas personalidades que parecem pensar à frente do seu tempo e, em diversos casos, são incompreendidos ou até mesmo injustiçados. Todavia, todos possuem um ponto em comum: são geniais a ponto de encontrarem soluções impressionantes para problemas complexos.

Vamos conhecer um pouco sobre a história e mente de Alan Turing, uma das personalidades que marcaram seu nome na história e tem grande relevância no desenvolvimento da computação moderna.

Mas antes de começarmos, você sabia que Turing adorava correr e chegou a ficar em 5º lugar em uma maratona. Além disso, era estudioso de física e inaugurou um ramo da biologia. Belo exemplo a ser seguido, não é mesmo?

Imagem de Alan Turing, um homem caucasiano e de cabelos escuros, com trajes de corredor e o número 140 na camiseta preta, correndo e várias pessoas ao redor observando sua chegada.

Fonte: heartheboatsing.com

Turing e computação moderna

Em um contexto de franca expansão do imperialismo britânico na Índia, dois ingleses, Ethel Sara Turing e Julius Mathison conceberam na Índia uma criança que futuramente revolucionaria a computação moderna. O casal, durante o período de licença aos serviços do Estado Inglês na Índia, voltou à Londres para que Ethel Sara pudesse dar a luz a Alan Mathison Turing em 23 de Junho de 1912.

Poucos sabem mas Turing não apresentava bom rendimento em disciplinas na área de humanas, como o Inglês, o que causava constrangimento em sua mãe. No entanto, desde muito jovem foi considerado um gênio da matemática e, ainda no internato de Sherborne, conseguiu uma bolsa para estudar matemática em King’s College, na Universidade de Cambridge.

Turing apresentava grande interesse nos estudos de Von Neumann e na reflexão sobre a forma que física quântica, através de como a matemática poderia descrever as probabilidades estatísticas em eventos num nível subatômico, e não apenas seguir cegamente leis determinantes.

Essa motivação de Turing impulsionou seus estudos sobre inteligência artificial, pois ele acreditava que essa indeterminação na menor porção atômica poderia ser o elemento diferenciador entre humanos e máquinas, ou seja, se os eventos em nível subatômico não fossem predeterminados, isso abre caminho para que nossos pensamentos ou ações não sejam predeterminados e, enfim, a ideia de livre-arbítrio estaria explicada. Conceito esse que posteriormente iria aplicar na sua Máquina de Turing e na teoria do Jogo da Imitação.

Introspectivo, Alan Turing contribuiu diretamente para definição de uma das principais características do que é um computador moderno, nas quais podemos destacar:

  • Digital;
  • Binário;
  • Eletrônico;
  • Propósito Geral.

A ideia principal estaria relacionada a mesma designada por Ada Lovelace, onde o computador deveria apresentar um propósito geral. No entanto, certamente duas de suas mais famosas contribuições estiveram relacionadas a sua participação na segunda guerra mundial e a construção da Máquina de Turing. Vamos conhecer um pouco mais?

Enigma vs the Bombe

Certamente o momento de maior repercussão na vida de Turing foi durante a decodificação da cifra Enigma no período da segunda guerra mundial (1939 a 1945). Antes mesmo de participar do projeto que decifrou a máquina vislumbrada pelo alemão Arthur Scherbius, Alan Turing era encantado por jogos de lógica, como xadrez, e já se interessava por criptologia.

Turing já trabalhava com máquinas de criptografia desde o findar de 1937, e chegou a construir os primeiros passos de uma máquina que codificava letras em números binários. Essa máquina tinha como resultado uma combinação de números gigantesca, como um cofre quase impossível de abrir. Após esse período e com a guerra estabelecida, Turing decidiu empenhar seus esforços em servir à coroa Britânica, e foi então designado para a Escola de Criptografia do Governo de Sua Majestade.

A batalha travada era de mentes, tecnologia e expertise no ramo da criptografia, pois o trabalho de descriptografar talvez seja mais complexo que cifrar um elemento. No período, matemáticos não faziam parte da equipe que era composta por literários e, como não houve avanço significativo, matemáticos foram contratados (via concurso de palavras cruzadas no jornal Daily Telegraph, algo que o filme “O Jogo da Imitação” mostra muito bem) e Alan Turing foi um dos intelectuais convocados.

Havia várias equipes trabalhando em conjunto, e embora sua natureza solitária fosse conhecida, Turing conseguia atuar em equipe quando necessário. Nesse momento o matemático teve contato com a máquina portátil confeccionada com circuitos elétricos e rotores mecânicos que criptografava mensagens militares: a Enigma

Imagem que mostra a máquina Enigma. Uma máquina eletromecânica envolvida por um caixote de madeira similar a uma mala. A máquina está aberta, seu interior é preto e apresenta um teclado com letras, acima do teclado há alguns sinalizadores das letras que acendiam após as teclas serem selecionadas. Abaixo do teclado há os rotores à mostra. Na tampa aberta há uma mensagem colada na caixa.

Fonte: ethw.org

O código gerado pela Enigma usava uma cifra que realizava uma permuta de caracteres todas as vezes que a tecla inicial era pressionada, ativando os circuitos elétricos e refletores. Os rotores mecânicos funcionavam como uma espécie de odômetro de carros, onde uma volta completa de um rotor avança também uma volta completa no próximo e assim codificava as mensagens. Pode parecer algo simples mas era extremamente complexo, sobretudo que para descobrir a cifra da Enigma era necessário saber o primeiro caractere, a chave a qual era modificada todas as noites, pontualmente às 24:00.

Os alemães avançavam na guerra e na arquitetura da Enigma, dificultando a descoberta da cifra e fazendo os britânicos perderem as esperanças em solucionar esse problema. Porém, a equipe a qual Turing pertencia começou a desenvolver uma máquina mais sofisticada que a Enigma, e a nomearam de “A Bomba”.

A bomba eletromecânica conseguiu aliar a tecnologia e também a perspicácia humana, pois explorou pequenos detalhes que seriam os “pontos fracos da codificação”, tais quais a impossibilidade de substituir uma letra por ela mesma e a permanência de frases corriqueiras nas mensagens como a ignóbil - que podemos entender como sórdida - frase “Heil Hitler!”

A bomba projetada por Turing foi fundamental para decifrar mensagens que revelavam segredos de guerra, como a posição de submarinos alemães que destruíam tropas britânicas, responsáveis por levar suprimentos. Além das duas bombas construídas terem decifrado 178 mensagens alemães, a Bomba de Turing alavancou a construção de projetos muito mais elaborados, como a Colossus

Nesse sentido, a Bomba eletromecânica de Turing não se configurava como um grande avanço na tecnologia computacional. Muitos acreditam que nem mesmo poderia se tratar de um computador, já que não era de propósito geral; além de ser uma máquina com relés e rotores no lugar de circuitos eletrônicos. Mas sem dúvida foi um avanço na criptografia e nos rumos da história.

A máquina de Turing e o jogo da imitação

Poderia uma máquina pensar? Você consegue diferenciar uma máquina de uma pessoa real? (quem nunca demorou um pouquinho para perceber que estava falando com um bot no lugar de uma pessoa em carne e osso?)

Vídeo em loop que mostra um braço mecânico segurando uma caneta e clicando no captcha de verificação de robôs em sites utilizando um notebook cinza. Depois do robô fazer a verificação, ele vira para a câmera, solta a caneta e conseguimos perceber que tem dois olhinhos. Após isso surge um óculos nos olhinhos do robô e descem os dizeres “deal with it” - tradução livre: lide com isso.

Fonte: gfycat.com

Antes de Turing imaginar a existência de uma conversa entre pessoas, robôs, assistentes virtuais ou chatbots permeados por Inteligência Artificial, ele já concebia em sua mente e seus escritos uma espécie de máquina imaginária, a originalmente chamada Máquina Lógica de Computação e que podia solucionar qualquer computação matemática.

O artigo publicado em 1937, sob o nome de “Sobre números computáveis, com uma aplicação ao Entscheidungsproblem”, apresentou “A Máquina de Turing” (que foi gentilmente rebatizada por Alonzo Church), descrita como uma máquina que tinha recebia uma fita de papel de comprimento infinito na qual poderia escrever e ler diferentes símbolos e números.

Ele também tem a preocupação em demonstrar que a máquina, com a mínima e exata configuração de operações, seria capaz de calcular qualquer coisa computável sem importar sua complexidade.

Dessa forma, a Máquina de Turing foi uma invenção teórica que, assim como a máquina analítica de Babbage, influenciou diretamente no conceito dos computadores de propósito geral construídos na atualidade.

A construção do conceito da Máquina de Turing foi um dos passos para o desenvolvimento de questões mais profundas, como as relacionadas à origem de consciência humana e também de máquinas, ou seja, da inteligência artificial!

Por volta de 1943, enquanto trabalhava em Bletchey Park, Turing conheceu Claude Shannon, que desenvolveu uma dissertação de mestrado onde demonstrava “que a álgebra booliana, que transformava proposições lógicas em variáveis binárias, podia ser realizada por circuitos eletrônicos” (Os inovadores, p.167).

O interessante é que tanto Turing quanto Shannon se interessavam pelos segredos do cérebro humano e convergiram para um ponto em comum em seus estudos: ambos entendiam que as máquinas poderiam resolver problemas matemáticos e ir além, pois seriam capazes de responder questões de lógica a partir das instruções binárias que operavam uma máquina. Em outras palavras, a conclusão é que se a lógica é a base do funcionamento do cérebro humano, uma máquina poderia a partir dessa base imitar a nossa inteligência!

Turing , assim como Ada Lovelace, imaginou se as máquinas poderiam pensar e, em suas reflexões se perguntavam se as máquinas também poderiam aprender. Tais questões foram vistas por muitos como transgressoras (religiosos, médicos e até matemáticos não concordavam com essa perspectiva) e refletia sobre a “inteligência” das máquinas a partir de novos computadores com programas armazenados.

Em meio a essa profusão de ideias, Turing consolidou seu novo trabalho, o “Computação, maquinaria e inteligência”, publicado em 1950. Foi nesse artigo que o apaixonado por quebra-cabeças desenvolveu o seu próprio jogo, o Teste de Turing , mais conhecido como O Jogo da Imitação.

O Teste de Turing, ou melhor, o Jogo da Imitação

O Jogo da imitação testa a capacidade de uma máquina imitar ou reproduzir a forma de pensar de um ser humano. Em geral, o funcionamento do jogo é relativamente simples.

Há um questionário que deverá ser entregue a uma pessoa e para uma máquina, por fim, a partir das respostas podemos determinar quem é ser humano ou máquina. Se o juiz não conseguir descobrir , podemos afirmar que a máquina passou no teste. A ideia não é “acertar” , mas ficar o mais próximo possível de respostas que um humano poderia elaborar.

De certa forma, o “Jogo da Imitação” poderia estabelecer parâmetros não somente para trabalhar com inteligência de máquinas, mas talvez para identificar o funcionamento do pensamento humano.

O que será que Turing acharia das tecnologias que temos hoje?

Vídeo em loop que mostra a robô Sophia, que funciona com inteligência artificial. A robô Sophia apresenta uma pele emborrachada, a cor da pele é clara e não tem cabelos. A parte de trás da cabeça deixa à mostra os circuitos elétricos do robô. A Sophia está sorrindo e com os olhos arregalados, ela está com a cabeça virada para frente e vira lentamente à direita, olhando diretamente para a câmera como ar assustador e engraçado ao mesmo tempo.

Fonte: gifer.com

Conclusão

Turing passou pouco tempo com seus familiares, onde sua educação foi pautada dentro de escolas e internatos. Ao completar um ano, seus pais voltaram para a Índia e Alan foi criado pelo irmão John e sua esposa em uma cidade litorânea da Inglaterra. Foi nesse contexto que Turing ingressou no internato de Sherborne e descobriu sua primeira paixão, Christopher, que por licença poética foi o nome utilizado para batizar a “Bomba eletromecânica” no filme “O jogo da imitação”.

Infelizmente essa história não tem um final feliz, em 1954 Alan Turing foi condenado. A acusação? manter uma relação com alguém do mesmo sexo. Alan então deveria escolher sua pena, a prisão ou tratamento hormonal que é o equivalente a castração química... o homem da lógica foi posto em ostracismo pela intolerância da época, apenas por não esconder sua sexualidade.

Após 60 anos, a rainha da Inglaterra concedeu o perdão real para Turing. Certamente muito tarde para o jovem, que sem dúvida teria contribuído muito mais para a ciência e teria vivido para ver seus feitos na história.

Imagem de Alan Turing, um homem caucasiano e de cabelos escuros curto.

Fonte: t2.gstatic.com

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E então, vamos aprender mais?

Camila Pessôa
Camila Pessôa

Olá, sou a Camila ! Tenho 33 anos, sou mãe e ingressei na área de tecnologia por meio da robótica educacional. Participei do Bootcamp { Reprograma } com foco em Back-End /Node.js e curso Sistemas de Informação.Atualmente faço parte do Scuba-Team e tenho grande paixão por educação e tecnologia, pois acredito que essa combinação é transformadora!

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