"Trabalhar de forma síncrona com 20 agentes vai te deixar exausto", diz Matt Velloso, ex-Meta, Microsoft e Google
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Matt Velloso acompanhou a corrida da inteligência artificial de dentro de alguns dos laboratórios que a estão definindo.
Foi vice-presidente na Meta e no Google DeepMind, com foco em IA e plataformas para desenvolvedores e atuou como assessor do CEO da Microsoft, contribuindo para a estratégia de produtos e inovação em IA da empresa.
Hoje, de fora dessas estruturas, ele tem feito alertas sobre a posição do Brasil nessa disputa e sobre o que separa empresas que realmente se transformam com IA daquelas que apenas acumulam demos.
Em conversa com Fabrício Carraro, curador do IA Conference Brasil, Program Manager na Alura e autor do livro "IA Generativa" pela Casa do Código, Matt detalha por que considera a questão energética a principal vantagem estratégica não aproveitada pelo país, os riscos regulatórios que o Brasil ignora ao mirar apenas em deepfakes e como o excesso de agentes de IA trabalhando em paralelo já está gerando burnout entre desenvolvedores.
Depois de acompanhar a corrida da IA de dentro de empresas como Microsoft, Google DeepMind e Meta, o que você acha que quem está do lado de fora ainda entende errado sobre essa competição?
Autor(a)
Fabrício Carraro
Fabrício Carraro é formado em Engenharia da Computação pela UNICAMP e pós-graduado em Data Analytics & Machine Learning pela FIAP. Atualmente, mora na Espanha.
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A maioria das pessoas no mundo ainda não usa uma LLM no dia a dia. Isso acontece por diversos motivos, sejam eles socioeconômicos, culturais, etc.
Mas o problema aqui é que tem um pedaço bem pequeno do mundo acelerando enquanto o resto fica para trás. Muitas pessoas já concluíram que a IA é uma mera bolha que não vai fazer diferença nenhuma no mundo, sem se dar conta de que, quando a diferença ficar óbvia, talvez seja tarde demais para se adaptar.
Você tem feito alertas bastante fortes sobre o risco de o Brasil ficar para trás na nova economia movida por IA. O que precisaria acontecer nos próximos anos para o país deixar de ser apenas consumidor e passar a ter um papel relevante nessa transformação?
Se for para resumir, eu diria quatro coisas.
Primeiro, posicionar-se estrategicamente. Quais são nossas vantagens estratégicas?
Uma deveria ser geração de energia e não estamos tirando vantagem dela. A China hoje adiciona, por ano, capacidade energética equivalente a duas vezes a capacidade total instalada do Brasil inteiro.
Isso não é uma competição, é um massacre. Com energia barata, teremos inteligência barata.
Essa inteligência pode então ser aplicada a saúde, segurança, ciência, educação e diversos outros pilares. As pessoas às vezes me interpretam mal e acham que eu quero data centers porque eles geram emprego.
Data center não gera emprego, mas se um país consegue prover inferência a baixo custo e abundância, ele passa a ter um exército de agentes inteligentes que podem ser usados para atacar qualquer problema social que o país queira resolver.
Segundo, listar claramente quais são os grandes riscos para a nossa soberania e regular de forma simples e direta esses riscos.
Por exemplo, o risco de a IA ser usada para manipular eleições. Não temos plano sério nenhum para atacar isso.Temos regulamentação contra deepfake, que não é nem de longe o maior risco para as eleições. Existem armas muito mais poderosas e eficazes, e não temos regulamentação para elas.
Terceiro, usar regulamentação onde, e apenas onde, ela é necessária.
O Brasil tem mania de fazer lei demais para resolver problemas de menos. É como um engenheiro de software que faz vinte camadas de aplicação e depois não consegue debugar nada. Soluções inteligentes e eficientes são simples; soluções supercomplicadas são burras.
Se não tomarmos cuidado, vamos travar o freio de mão e não vamos nos permitir inovar num momento em que essa oportunidade não vai ficar esperando muito tempo.
Quarto, parcerias estratégicas.
O Brasil não vai, sozinho, ser soberano em modelos de IA. Nem em sonho. O nosso PIB é metade do market cap da Nvidia sozinha. O que um laboratório de IA grande gasta com energia, dinheiro e computação é algo fora da realidade brasileira.
Mas o país pode sim trabalhar em parceria com outros países que enfrentam o mesmo desafio e juntar forças.
Entre modelos abertos e fechados existe um meio-termo, onde acordos entre países podem permitir o compartilhamento de datasets, ciência e capacidade computacional.
Nós não vamos entrar numa luta de boxe contra o Mike Tyson e achar que sozinhos vamos ganhar, mas com parceiros suficientes a coisa muda de figura.
Você já apontou geração de código como uma das aplicações mais importantes da IA nas empresas. Se cada vez mais código passa a ser escrito por modelos, o que passa a diferenciar um excelente desenvolvedor de um desenvolvedor mediano?
Muitos dos meus amigos nessa área estão experimentando burnout. Estão exaustos, usando agentes para escrever código e não dando conta da exigência cognitiva de trabalhar assim.
O próximo desafio para eles é entender que, se você trabalha de forma síncrona com vinte agentes, todos te interrompendo a cada minuto com perguntas complexas que exigem o máximo da sua capacidade cognitiva, você vai ficar exausto e tomar decisões erradas.
Esse modelo não funciona. Você tem que dar um passo para trás e estabelecer como usar os agentes para te ajudar a planejar, não só a executar. Menos prompt-resposta e mais loops; menos respostas pontuais a cada dúvida e mais tempo no planejamento do projeto.
Nós estamos rapidamente virando o gargalo do processo, mas também somos o componente mais importante dele, então precisamos nos posicionar de acordo.
Ao mesmo tempo em que os modelos ficam mais poderosos, você tem falado sobre wearables e novas formas de interagir com computadores. Que mudança na nossa relação com a tecnologia hoje parece estranha, mas daqui a cinco anos pode parecer óbvia?
A gente não imaginava como o telefone ia substituir muito do que fazíamos no laptop. A gente também não imagina o quanto o óculos vai substituir o que fazemos no telefone. Vai ser simplesmente mais fácil e mais prático.
Ele vai ter uma memória infinita, vai te dizer o que aconteceu ontem numa reunião, o que pediram para você lembrar de comprar no supermercado; você vai olhar para uma propaganda de um show e vai pedir para ele reservar o ingresso, marcar na sua agenda.
Você vai estar operando um paciente e ele vai te lembrar de todos os detalhes, consultar todas as informações relacionadas. O ato de pegar um tijolo no seu bolso com uma telinha e ficar apertando botões vai ser meio como pegar uma máquina de escrever hoje e datilografar uma carta.
Depois de viver a IA tanto dentro dos grandes laboratórios quanto agora mais próximo de empresas que tentam adotá-la, o que separa as organizações que estão realmente se transformando daquelas que estão apenas acumulando demos e experimentos?
Focar na realidade, na dor do cliente, no valor que você entrega. Quando eu vejo um gerente que mede performance de um programador pelo número de tokens que ele consome, eu vejo um gerente incompetente que deveria ser demitido, porque ele não sabe gerenciar, não sabe medir performance, e não sabe nem o que pedir para o programador fazer.
Não é nem um peso morto: ele contribui negativamente para a empresa. Gera um custo absurdo e não entrega nada de volta.
Todas as pessoas que conheci na minha carreira que focaram em ter empatia com o cliente, em entender como fazer a vida dele ou dela mais fácil, em atingir os objetivos principais da empresa, acabaram decolando profissionalmente. Isso sempre foi e sempre vai ser verdade.
Se você quiser ouvir mais dessas ideias do Matt, temos um encontro marcado no IA Conference Brasil, o maior evento de IA e tecnologia do país, realizado pela Alura.
Dia 24 de setembro de 2026, no Frei Caneca, em São Paulo, você tem a chance de se conectar com quem está construindo a próxima era da IA no Brasil.
A terceira e maior edição do evento vai reunir mais de 1.300 profissionais, +50 conteúdos exclusivos e palcos simultâneos pensados para quem quer sair de lá entendendo o que realmente importa entre tantas novidades que surgem no mercado.
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