Liderança e Gestão

Engenharia de software: o que é e como estruturar times

Francine Ribeiro

Francine Ribeiro


Pontos-chave:

  1. Engenharia de software é a disciplina que organiza a criação, a entrega e a manutenção de sistemas que precisam funcionar de forma confiável. Ela cuida do processo inteiro, e não apenas da escrita de código.
  2. Um squad de engenharia de software reúne responsabilidades complementares, de quem define o problema a quem responde pela qualidade do que entra no projeto.
  3. Segundo o Gartner, 60% das organizações vão operar com times de engenharia menores até 2029, contra 15% em 2026. A mudança exige investimento em ferramentas internas e em desenvolvimento de pessoas.

Em uma empresa, um projeto pode ser entregue rapidamente e, poucas semanas depois, exigir correções e gerar retrabalho. Esse é um dos desafios que a engenharia de software busca evitar ao organizar como as equipes acompanham uma solução ao longo de todo o seu ciclo.

O problema aparece, principalmente, quando a estrutura do time favorece uma atuação muito segmentada: cada profissional se responsabiliza por uma etapa da entrega, mas falta quem acompanhe o produto de ponta a ponta.

Quando esse olhar sobre o todo não existe, decisões tomadas em uma etapa podem gerar impactos que só aparecem mais adiante. Um problema de arquitetura, por exemplo, pode dificultar a manutenção do sistema; e uma escolha feita durante o desenvolvimento pode comprometer a experiência de quem usa o produto.

Por isso, para quem ocupa cargos de liderança em tech, o desafio está em criar times capazes de assumir maior responsabilidade pelos resultados das soluções que desenvolvem.

Segundo o Gartner, 60% das organizações devem adotar times menores de engenharia em escala até 2029, contra 15% em 2026.

Para entender melhor sobre o que é engenharia de software, como funciona uma equipe dessa área e o que considerar para estruturar um time na sua empresa, continue a leitura deste artigo!

Engenharia de software: o que é?

Engenharia de software é a disciplina que aplica métodos, processos e critérios de qualidade à construção de sistemas que precisam funcionar de forma confiável ao longo do tempo. Ela trata do ciclo completo: entender o problema, projetar a solução, construir, testar e colocar no ar.

A diferença em relação à programação isolada está no compromisso com o resultado. Escrever um código que funciona uma vez é uma tarefa; garantir que ele siga funcionando com mais pessoas é outra.

Engenharia de software dentro de uma empresa

Dentro de uma organização, a engenharia de software transforma decisões de negócio em sistemas que sustentam a operação. Um site de vendas, um aplicativo de atendimento e um sistema de faturamento são resultados desse trabalho.

O que muda quando essa estrutura existe é a previsibilidade: as entregas ganham padrão, o histórico de mudanças fica registrado e corrigir falhas não depende da memória de uma pessoa.

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Engenharia de software: o que faz, na prática?

Antes de pensar em estrutura de time, é preciso deixar claro que a área de engenharia de software atua em cinco frentes conectadas.

  1. Entendimento do problema: a demanda que chega raramente descreve a causa. Um pedido por um novo relatório de cobrança pode revelar, por exemplo, cadastros de clientes duplicados. Nesse caso, a entrega resolveria apenas o sintoma.
  2. Projeto da solução: definir como as partes do sistema conversam entre si. Em uma empresa de logística, essa decisão determina se um novo canal de vendas entra no ar em semanas ou em meses.
  3. Construção com padrão: escrever e revisar o que será entregue. Quando cada time adota um estilo próprio, a manutenção da entrega fica presa a quem escreveu o código.
  4. Garantia de qualidade: testar antes que uma pessoa encontre a falha. Para isso, uma verificação automática que roda a cada mudança pode barrar um erro de cálculo de frete antes do primeiro pedido.
  5. Manutenção e evolução: cuidar do que já está no ar. Sistemas antigos concentram regras importantes do negócio, e mexer neles sem cuidado e estratégia aumenta o risco de parada.

Leia também: Quais são os tipos e como fazer a gestão de riscos na sua empresa

Equipe de engenharia de software: como funciona no dia a dia?

Uma equipe de engenharia de software funciona quando cada pessoa sabe qual decisão é sua e qual não é. A organização de um setor hoje reúne poucas pessoas com responsabilidades amplas em torno de um produto.

O Gartner descreve times de quatro ou cinco pessoas, sustentados por uma área que cuida das ferramentas internas. A composição mínima inclui:

  • alguém responsável pelo produto;
  • alguém pela experiência de uso; e
  • ao menos uma pessoa de engenharia com domínio de Inteligência Artificial.

Nesse modelo, as responsabilidades entre cargos ficam flexíveis: a mesma pessoa que acompanha o objetivo de negócio participa do desenho da solução e supervisiona o que os agentes de IA produzem.

Para ficar mais claro, veja uma comparação simples de times de engenharia tradicionais e enxutos:

Time tradicional de engenhariaTime enxuto apoiado por IA
Foco: escrever código a partir de pedidos já definidos.Foco: decidir o que construir e revisar o que a IA produz.
Tamanho: equipes grandes divididas por especialidade.Tamanho: quatro ou cinco pessoas por produto.
Responsabilidade: cada função responde pela sua etapa.Responsabilidade: o time responde pelo resultado completo.
Qualidade: verificada no fim, em uma etapa separada.Qualidade: verificada de forma automática a cada mudança.
Relação com o negócio: recebe demandas prontas.Relação com o negócio: participa da definição do problema.

Leia também: Como melhorar a produtividade do seu time com o uso de IA?

O que muda nos times de engenharia de software com a Inteligência Artificial?

A discussão sobre estrutura ficou mais urgente porque a ferramenta mudou. No relatório "State of AI-assisted Software Development", do Google Cloud, que ouviu quase 5 mil profissionais de tecnologia, 90% relatam usar a IA no trabalho.

Isso, porém, não significa que desenvolver software tenha se tornado automaticamente mais simples. O mesmo estudo mostra o outro lado: 30% relatam pouca ou nenhuma confiança no código gerado por IA, e a adoção segue associada a mais instabilidade nas entregas.

Ou seja, ganhar velocidade para produzir código não elimina a necessidade de uma pessoa revisar decisões, validar resultados e garantir a qualidade do que chega às pessoas.

É nesse ponto que o papel dos times de engenharia de software começa a mudar. Se parte da execução pode ser acelerada pela IA, aumenta a importância de entender o problema que precisa ser resolvido, tomar boas decisões técnicas e acompanhar o resultado da solução como um todo.

Em um painel de Alun Business sobre engenharia de software e produto, disponível no YouTube, Maurício Aniche, CTO da Alura, resumiu o deslocamento do papel técnico: "escrever código nunca foi a parte mais complicada de se fazer um produto. O desafio é realmente saber o que construir."

Raphael Farinazzo, CEO da PM3, também alertou para uma interpretação equivocada dos ganhos de produtividade: "existe aquela ilusão de que eu vou colocar IA e vou desligar 40% do meu time e vou ficar muito produtivo. Na verdade, é o contrário, tem muito trabalho para ser feito."

A partir disso, podemos concluir que a IA não reduz a necessidade de pessoas nos times de engenharia; ela muda onde o trabalho humano gera mais valor. Ou seja, em vez de equipes concentradas em executar partes isoladas do projeto, ganha espaço uma estrutura em que profissionais conseguem acompanhar problemas, decisões e resultados de forma mais ampla.

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Como estruturar uma equipe de engenharia de software na sua empresa

O estudo "The AI revolution in software development" da McKinsey, que contou com cerca de 300 empresas de capital aberto, mostra que melhorar os resultados da engenharia de software depende mais do que adotar novas ferramentas.

Entre as organizações analisadas, as 20% com melhor desempenho registraram ganhos de 16% a 30% em produtividade e de 31% a 45% em qualidade de software.

Esses resultados estão ligados à forma como as equipes são organizadas, como as responsabilidades são distribuídas e como o trabalho acontece no dia a dia. Por isso, estruturar uma equipe de engenharia exige repensar processos e papéis.

Abaixo, confira os cinco passos principais para estruturar um time de engenharia de software.

1º passo: defina o time por resultado, não por especialidade

Organize cada equipe em torno de um produto, uma jornada ou um indicador de negócio. Uma estrutura montada por especialidade pode acelerar cada etapa, mas atrasar a entrega final, porque ninguém responde pelo projeto como um todo.

2º passo: deixe explícito quem decide o quê

Registre quais decisões pertencem ao time e quais precisam de outra pessoa da empresa, como mudanças na estratégia do projeto. Sem esse acordo, uma escolha técnica simples pode ficar parada semanas à espera de aprovação.

3º passo: invista nas ferramentas internas de desenvolvimento

Ferramentas internas são o que a equipe usa para trabalhar sem montar tudo do zero: ambiente de desenvolvimento pronto, publicação automatizada, monitoramento e acessos já configurados. Padronizar esse conjunto de recursos faz com que quem entra em um projeto comece a produzir no mesmo dia.

O Google Cloud mostra que 90% das organizações já adotaram ao menos uma plataforma interna e que a qualidade dela tem relação direta com o resultado obtido com a IA.

Leia também: 10 ferramentas de IA para aumentar a produtividade da sua empresa

4º passo: coloque limites e verificações automáticas no fluxo

Configure testes automáticos a cada mudança, revisão obrigatória e registro de quem alterou o quê. Sem esses controles, mais códigos gerados podem significar mais falhas na produção.

Leia também: Cultura do test and learn — como criar um ambiente de testes e inovação contínua

5º passo: desenvolva o time para o novo desenho

Quem antes se especializava em uma linguagem de programação agora precisa combinar profundidade técnica com entendimento de produto e de negócio. Esse repertório é importante para avaliar, inclusive, se as soluções propostas pela IA realmente fazem sentido para a empresa.

Desenvolver essas competências de forma contínua ajuda a preparar as equipes para assumir mais autonomia, tomar melhores decisões e acompanhar as mudanças na engenharia de software.

Para apoiar esse desenvolvimento, a Alura para Empresas oferece soluções de capacitação alinhadas às necessidades dos times de tecnologia, como letramento em IA, arquitetura de software e liderança técnica.

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Francine Ribeiro
Francine Ribeiro

Analista de Conteúdo da Alura +FIAP Para Empresas. Jornalista de formação, com MBA em Comunicação Corporativa pela Universidade Tuiutí do Paraná (UTP) e MBA em Business Strategy e Transformation pela FIAP. Atua com produção de conteúdo para empresas desde 2009 e com marketing digital desde 2016.