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Lideranças de tecnologia, finanças e RH enfrentam hoje uma pergunta importante: quanto do investimento em IA realmente voltou para o negócio? A resposta, porém, pode ser complexa.
A pesquisa Value of AI, da SAP com a Oxford Economics, ouviu 200 líderes brasileiros de empresas médias e grandes. O retorno médio atual relatado no levantamento de 2025 foi de 16%, com projeção de 31% para 2027. Ainda assim, outro levantamento revela um problema anterior: a confiança na medição.
A Strand Partners conduziu um estudo para a AWS, intitulado "Desbloqueando o Potencial da IA no Brasil 2026" e publicado pela Folha em 2026. Segundo o estudo, apenas 33% das empresas brasileiras declaram confiar na própria capacidade de medir o ROI de IA com precisão.
Este artigo, então, busca aprofundar o tema e explorar como medir o ROI da IA neste cenário.
ROI da IA é a relação entre o retorno financeiro gerado por uma iniciativa de Inteligência Artificial e o custo total investido para implementá-la e mantê-la.
A lógica não é diferente do ROI de outros investimentos corporativos, mas a IA tem particularidades que tornam o cálculo mais sensível a erros de atribuição.
O primeiro erro é medir apenas o ganho na tarefa (tempo economizado, respostas geradas, itens processados, etc.) e tratar esse número como se já fosse retorno financeiro.
Segundo o relatório Think Cricle da IBM, apenas 29% dos executivos afirmam que podem medir o ROI da IA com confiança. Por outro lado, 79% observam ganhos de produtividade. Ou seja, existe valor operacional, mas ele nem sempre chega ao caixa da empresa.
A fórmula básica de ROI da IA segue a estrutura clássica de qualquer investimento:
ROI (%) = (Retorno anual − Custo total anual) / Custo total anual × 100
O ponto crítico, porém, está em como preenchemos esses dados. Do lado do custo, a conta completa vai muito além da licença da ferramenta ou do contrato com o fornecedor de modelo. Os custos totais de propriedade de uma iniciativa de IA incluem:
Do lado do retorno, a IBM classifica os ganhos em duas categorias:
Separar essas duas categorias evita que ganhos qualitativos sejam apresentados como retorno financeiro sem essa ressalva.
Neste guia, tratamos horas economizadas como um ganho operacional. Sua inclusão no cálculo do ROI financeiro exige demonstrar como a capacidade liberada contribuiu para reduzir despesas, evitar custos ou gerar margem adicional. Sem essa conexão documentada, as horas poupadas indicam eficiência, mas não comprovam necessariamente retorno financeiro.
Sem uma destinação planejada, o tempo liberado pode não produzir um benefício financeiro identificável. A pessoa que economizou três horas por semana revisando relatórios não necessariamente produz mais três horas de valor rastreável. Ela pode usar esse tempo em reuniões, em outras tarefas de baixa prioridade ou em trabalho que já seria feito de qualquer forma. Por isso, contar hora economizada multiplicada pelo custo-hora como retorno automático pode distorcer o cálculo.
Em relação ao desempenho dos projetos, o levantamento citado pela IBM informa que apenas cerca de 25% das iniciativas de IA entregam o ROI esperado. Além disso, só 16% chegam a ser implementadas em toda a empresa. O motivo, segundo a IBM, não costuma ser técnico: cultura, governança, desenho de fluxo de trabalho e estratégia de dados são as principais restrições para transformar produtividade em resultado financeiro.
Para evitar essa armadilha, é mais seguro tratar o impacto da IA em três camadas distintas, cada uma com um nível diferente de evidência exigida.
Nível 1: Tarefa. Mede o que a IA muda em uma atividade isolada: tempo de execução, taxa de erro, qualidade da entrega. É o nível mais fácil de medir e o mais comum nos relatórios internos, mas isoladamente não prova nada sobre o negócio.
Nível 2: Processo. Mede o que muda no fluxo de trabalho como um todo: retrabalho evitado, capacidade adicional disponível, redução de prazo entre etapas. Aqui já é possível observar se o ganho de tarefa realmente se propaga para o processo ou se fica isolado.
Nível 3: Negócio. Mede o que efetivamente chega ao resultado financeiro: custo evitado de forma verificável, aumento de margem ou receita incremental atribuível à mudança. Só neste nível é correto falar em ROI financeiro comprovado.
A passagem entre os níveis não é automática. Um ganho de tarefa pode nunca chegar ao processo, se a organização não redesenhar o fluxo de trabalho ao redor dele. E um ganho de processo pode nunca chegar ao negócio, se a capacidade liberada não for direcionada a algo que gere caixa ou evite custo.
| Nível | Indicadores operacionais | Indicadores financeiros |
|---|---|---|
| Tarefa | Tempo de execução, taxa de erro, volume processado | Geralmente nenhum ainda comprovável |
| Processo | Retrabalho evitado, capacidade liberada, prazo entre etapas | Custo evitado estimado (ainda sujeito a validação) |
| Negócio | Volume entregue, satisfação do cliente, retenção | Custo evitado confirmado, margem, receita incremental |
Esse quadro ajuda a evitar que um número de nível 1 seja apresentado a um comitê financeiro como se fosse um número de nível 3. A diferença de rigor entre as colunas é exatamente o que separa uma boa notícia operacional de uma comprovação de retorno.
Nenhum ROI é confiável sem uma linha de base clara antes da implementação. Isso significa registrar quatro variáveis antes das ferramentas de IA entrarem em uso.
São elas: o custo atual do processo, o tempo médio de execução, a taxa de erro e o volume processado.
O ideal é observar um período representativo, sem picos sazonais.
Em seguida, é preciso isolar o efeito da IA de outras variáveis que também podem explicar uma melhora. Mudança de equipe, sazonalidade de demanda ou outra iniciativa rodando ao mesmo tempo são exemplos comuns. E observe: se três projetos de melhoria acontecem no mesmo trimestre, atribuir todo o ganho à pode não ser um fato comprovado.
Ferramenta de IA sem capacitação de pessoas para usá-la para usá-la raramente sai do nível 1. É por isso que capacitação e redesenho de processo não são custos acessórios do projeto de IA.
Como mostra nosso guia sobre capacitação em IA no aprendizado corporativo, existe um gap entre ferramentas disponíveis e competências para usá-las com senso crítico. Esse gap é um dos principais motivos pelos quais investimentos em IA não se traduzem em resultado.
Além disso, a estratégia de IA para empresas precisa considerar governança e redesenho de fluxo de trabalho. São eles que decidem se um ganho de tarefa vai se propagar até o processo e o negócio, ou se vai ficar restrito a um experimento isolado.
Ainda, medir o ROI de um treinamento corporativo não é o mesmo que medir o ROI de um projeto de IA. A metodologia de mensuração dos treinamentos pode e deve ser um componente dentro do cálculo maior de ROI da IA, mas não substitui a análise de processo e negócio.
Boa parte do risco de atribuição descrito neste artigo vem da dificuldade das empresas conectarem o desenvolvimento das pessoas aos desafios reais que estão tentando resolver com IA. E sem essa conexão, fica difícil saber se o ganho de processo veio da ferramenta, da capacitação do time ou de outra mudança acontecendo ao mesmo tempo.
É importante admitir quando um projeto de IA ainda não tem ROI financeiro comprovado, em vez de forçar uma conclusão. E isso costuma acontecer em três situações.
A primeira é quando o processo automatizado não existia antes, sem linha de base para comparação. A segunda é quando os dados necessários para o sistema funcionar bem ainda estão sendo organizados, o que é comum em fases iniciais de maturidade de dados. A terceira, mais frequente, é quando a capacidade liberada pela IA aumenta volume ou reduz prazo, mas ninguém documentou a conexão dessa mudança com um resultado financeiro específico.
Nesses casos, o caminho correto é tratar o projeto como piloto controlado, com hipóteses explícitas de impacto, e revisar essas hipóteses com dados reais de operação.
Use a fórmula ROI (%) = (Retorno anual − Custo total anual) / Custo total anual × 100. O retorno anual só deve incluir ganhos de nível 3 (negócio): custo evitado confirmado, margem ou receita incremental. Ganhos de tarefa e de processo são etapas importantes do diagnóstico, mas não devem ser lançados diretamente na fórmula como se já fossem retorno financeiro.
O custo total de propriedade inclui licenças e uso de API, além da integração com sistemas existentes. Some a isso a revisão humana do que a IA produz, o treinamento das equipes e a governança contínua (monitoramento, auditoria e manutenção). Ignorar qualquer um desses itens infla artificialmente o ROI calculado.
Só contam como ROI financeiro quando geram uma economia de caixa verificável ou uma receita adicional documentada. Se a capacidade liberada não for redirecionada para algo com valor financeiro claro, ela permanece um ganho de nível 1 (tarefa). É útil como indicador operacional, mas insuficiente como prova de retorno.
Porque relatar percepção de retorno e medir retorno com metodologia são coisas diferentes. O estudo Strand Partners/AWS mostra que 66% das empresas relatam retornos que superaram o investimento, mas apenas 28% têm uma estrutura de medição bem definida e aplicada de forma consistente. A percepção de ganho existe antes da metodologia capaz de comprová-la.
Não existe prazo universal, e desconfie de qualquer número apresentado como padrão de mercado. O tempo depende do volume do processo, da complexidade da integração e de quanto a organização já tinha de dados organizados antes de começar. O caminho mais seguro é definir o horizonte de reavaliação no início do piloto, e não durante a apresentação dos resultados.
Como explicamos, ROI de T&D e ROI de IA são diferentes, mas parte do risco de atribuição descrito neste artigo nasce da falta de conexão entre o desenvolvimento das pessoas e os desafios reais que a organização tenta resolver com IA.
O Performance Lab da Alura Para Empresas foi desenhado para essa lacuna específica de T&D. Nele, o time desenvolve competências resolvendo desafios reais do negócio, com acompanhamento de impacto ao longo da jornada.
Quer desenvolver seu time em IA, conectando o desenvolvimento aos desafios reais do negócio? Fale com nosso time de especialistas e conheça o Performance Lab e outras ferramentas da Alura Para Empresas.