Multidisciplinaridade e diversidade em times de tecnologia

Multidisciplinaridade e diversidade em times de tecnologia
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Um dos componentes básicos de times ágeis é a multidisciplinaridade -- tanto que gastamos um bom esforço nos cursos sobre Agilidade motivando discussões profundas sobre esse assunto. É fácil entender os benefícios de trabalhar com pessoas que tenham um conjunto de habilidades diferentes e complementares às nossas. Os conhecimentos e pontos de vista diversos nos ajudam a:

  • passar menos tempo esperando o especialista atender nosso projeto;
  • promover aprendizado emergente o tempo todo, eventualmente criando indivíduos multidisciplinares;
  • dar estimativas mais reais, já que considera todos os envolvidos;
  • criar uma linguagem compartilhada que todos entendem, melhorando a comunicação;
  • criar o hábito de nos preocuparmos com problemas dos outros, tornando-nos pessoas mais empáticas.

Note que esses benefícios não são específicos para times de desenvolvimento de software, ou sequer projetos! Vemos o conceito de times multidisciplinares sendo utilizados nas mais diversas áreas em que os desafios que serão enfrentados sejam imprevisíveis -- por exemplo, times formados de profissionais de saúde com diversas especialidades são cada vez mais comuns para diagnósticos e tratamentos complexos.

Times ágeis experientes vão um passo além desse: trabalhando sempre com pessoas de variadas especialidades, aprendemos uns com os outros e nos tornamos profissionais multidisciplinares (ou multifuncionais), bastante valorizados no mercado atual.

A diversidade de conhecimento traz vantagem competitiva para o time.

Vamos além nesse pensamento: o que estamos chamando de conhecimento aqui? Será que o conhecimento que um membro traz para o time se baseia apenas em habilidades técnicas que aquela pessoa estudou para aprender?

Na minha opinião, é muito mais do que isso.

Cada indivíduo traz consigo toda uma visão sobre o mundo construida sobre seus conhecimentos técnicos, sim, mas também sobre sua vivência, as experiências pelas quais passou, as pessoas que conheceu, etc. Cada pessoa se traz inteira para o projeto, não apenas suas habilidades técnicas.

E esse tipo de diversidade tem o mesmo efeito positivo, que pode ser o ponto decisivo entre um projeto bem sucedido e um projeto muito bem sucedido: vindos de perspectivas diferentes, enxergamos riscos e oportunidades diferentemente -- e enxergar mais opções pode ser crucial.

Nos últimos anos, vemos um crescimento considerável das discussões sobre a falta de diversidade em TI, uma retomada no interesse feminino por computação e potenciais políticas para aumentar o número de mulheres na área -- a Mari Bravo e eu até promovemos uma discussão sobre isso na Agile Brazil 2014. No entanto, precisamos lembrar que melhorar esse número é apenas uma das formas de aumentar a diversidade na área.

Pense no seu ambiente de trabalho: chances são de que você esteja cercado de homens brancos heterossexuais de cerca de 30 anos de idade, e uma ou outra pessoa que não se encaixa nesse perfil. Ou, talvez, sua empresa fuja a esse estereótipo, mas caia em outro: por exemplo, aqui na Caelum São Paulo, a grande maioria das pessoas têm entre 20 e 30 anos, é paulista, teve a chance de fazer um bom colegial e vieram de faculdades públicas -- ou particulares renomadas.

Não se engane: é muito mais fácil fazer parte

do grupo que domina um ambiente.

Por mais que o grupo que é padrão no ambiente seja acolhedor, estar fora dele vem com seus próprios desafios. Seja a sua diversidade de gênero, regional, de estudo, classe social, cor da pele, ou qualquer outra você certamente passou por situações desconfortáveis que exigiram muito mais força de vontade em estar ali.

Uma boa prática para entender a minoria é lembrar de algum momento em que você não fazia parte do grupo dominante em um ambiente e como você se sentiu. Provavelmente, sua sensação de segurança era menor, sua confiança em entrar em conversas foi abalada e você até mesmo pode ter reagido de forma diferente do seu natural -- talvez para se sentir mais parte daquele grupo.

Ter consciência dos privilégios que nós temos é importante. E um vídeo que eu fortemente recomendo sobre esse assunto foi publicado no BuzzFeed lá pelo meio de 2015:

Começando a mudança!

Você não precisa dar passos difíceis e grandiosos como mudar a política de contratação da empresa onde você trabalha, ou incentivar meninas (e há oportunidades para isso!) a se interessarem por programação, promovendo oficinas para elas.

Pequenas ações podem ser tomadas para que criar um ambiente confortável para que todas as pessoas se sintam bem em falar de qualquer coisa e se expor. Anote na sua agenda datas periódicas para se perguntar se você e seu grupo de amigos mais próximos estão dando abertura para novos participantes.

É importante, também, notar que mesmo boas intenções podem ter efeitos inesperados. Aí eu recorro às palavras do Martin Fowler, que no artigo sobre Atmosfera Alienadoras nos lembra que: "Eu não consigo escolher se alguém se ofende com minhas ações. Mas eu consigo escolher me importar." Essa é uma escolha que você sempre terá e eu torço para que você tenha a coragem de exercê-la.

Outra ação super barata que você pode fazer é escolher uma pessoa que você provavelmente não conversaria e demonstrar real interesse no caminho que ela percorreu na vida. E essa vem até com um bônus: você pode descobrir ter mais em comum com ela do que supunha!

Outras várias são formas simples e viáveis de fazer pessoas diferentes de você se sentirem mais parte do ambiente, promovendo uma maior diversidade no local de trabalho. Seja criativo!

O que você vai (pelo menos tentar) fazer ou já fez para melhorar a diversidade no seu time?

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